sexta-feira, 24 de maio de 2013

Primeiras Impressões: Amor à Vida






Se você, assim como eu, não aguentava mais Salve Jorge e toda a falta de nexo que rolou por sete meses, vem comigo, porque chegou novela nova. Mas aviso logo: no caso de Amor à Vida, estreia da última segunda, às 21h (mais ou menos) da Globo, o adjetivo nova não é, necessariamente, sinônimo para boa. Na verdade, se você já assistiu a algo escrito por Walcyr Carrasco, se prepare: Amor à Vida vai ser tudo, menos uma boa novela. 

Existe certa responsabilidade nos ombros dos autores que escrevem para o horário mais importante da tevê brasileira, mas isso não impede que alguns cometam deslizes ou façam grandes merdas. E dessa vez não estou falando de Gloria Perez. Vamos deixar as orelhas dela descansarem um pouco. Gilberto Braga, aquele poderoso que sempre escreve vilões incríveis e caga o final da próprias tramas, já cometeu o pecado de fazer novela ruim às oito da noite – naquela época novela das nove tinha nome das oito, mesmo começando as oito e quarenta e cinco. E nada o impediu de retornar ao horário com outras histórias tão deliciosas quanto suas vilãs apaixonantes e superar o erro cometido anteriormente.

O caso é que Carrasco assumiu pela primeira vez o horário (e olha que ele já tinha no currículo mais novelas que João Emanuel Carneiro quando foi promovido e escreveu A Favorita, mais conhecida como a melhor novela das nove dos anos 2000) depois da bomba que foi Morde e Assopra e da morna adaptação de Gabriela para as onze horas. Para o horário nobre, entretanto, ele decidiu trazer todos os elementos do bom e velho folhetim. E isso não é nada ruim, o problema é que se você não conseguia voar com Salve Jorge, a trama de Amor à Vidanão vai facilitar as coisas para você em nada.


Como início de novela no Brasil é só pra agradar a Classe C (saudades JEC), a novela de Walcyr começa em Machu Picchu, para desespero da classe AAA. Paloma, personagem da sempre linda Paola Oliveira, decidiu fazer a viagem de seus sonhos com toda a família para comemorar que passou para faculdade de medicina e será, no futuro, uma médica tão boa quanto o pai, Cesar Khoury, vivido pelo sempre ótimo Antônio Fagundes. Mas engana-se quem acha que a essa é a primeira investida da moça em um curso superior. Paloma já havia começado artes plásticas e advocacia, mas não terminou nenhum curso. Ou seja, percebe-se que a mocinha dessa novela é alguém com muito comprometimento perante a vida, só que não. Tanto é que ela se abre com o primeiro grupo de hippies que encontra pelo caminho e já segue a vibe paz e amor de todos eles, para desespero de Pilar, sua mãe, vivida por Susana Vieira (A.K.A. DIVA maior da televisão brasileira), que não tem um bom relacionamento com a filha – e quem em uma situação dessas conseguiria ter?

Então vamos resumir um pouco como as coisas foram apresentadas em vinte minutos de novela, mas colocando você, querido leitor, como primeira pessoa da ação. Imagine que você não tem um bom relacionamento com sua mãe e sabe que ela prefere Nova York à Machu Picchu, mas carrega a coitada para o Peru em uma bela viagem em família porque esse é o seu sonho e seu pai faz tudo o que você quer. Não satisfeito, ainda faz com que a coitada de sua mãe, que está odiando tudo, ande para cima e para baixo em cima de um salto bem alto. Agora me responda, sinceramente: quem é mesmo a mocinha dessa história? Pois é.

Mas se você estava achando que faltava um conflito mais real, mais pessoal, fique sabendo que nos primeiros quinze minutos, Paloma ouve de seu irmão, Félix (interpretado pelo ótimo, mas ainda sem o tom certo de sua personagem, Mateus Solano) que ela é adotada. Só que a grande sacada de tudo isso é que ele não tem total certeza disso. Ele só ACHA. Como o rapaz não se lembra da gravidez da mãe e, para ele, a irmã surgiu do nada em sua casa, só pode concluir que ela é adotada. Afinal, tirar a dúvida e perguntar pra quê, não é mesmo? Esse tem que ser o mistério da novela...


Não satisfeita por acreditar na história de adoção, Paloma decide se rebelar. Só que aqui a rebeldia de Paloma tem outros propósitos: entregar-se na mesma noite para o hippie Ninho (Juliano Cazarré) e fugir com ele rumo ao mundo. Já que é adotada, concluir a faculdade pra quê? E se precisar de dinheiro? Ah, colhe uma plantação, faz um artesanato. Tão básico e fácil, não é mesmo? E mais uma vez pergunto: que mãe sentiria orgulho de uma filha assim? Pois é, Pilar já havia levantado à bola que a menina tinha o ímpeto de começar, mas de não terminar as coisas. Que tem fogo de palha como puta tem fogo no rabo. E isso ficou mais do que provado só nesse primeiro dia. O detalhe maior é que tudo isso aconteceu antes de meia hora de novela. Sim, o capítulo foi longo e Carrasco quis justificar a viagem da equipe. O que é digno para esse povo que viaja tanto quanto Zeca Camargo.

Só que Paloma não estava satisfeita de fugir com o hippie e curtir a vida sem dinheiro. Sim, ela precisava ter mais emoção e rebeldia na veia. Paloma precisava gravidar e quase obrigar o namorado a voltar com ela para a casa de seus pais. Duros, sem dinheiro e paciência para artesanatos, Ninho decide traficar drogas e assim conseguir dinheiro para as passagens de avião. Claro que isso não daria certo, não poderia, é claro, afinal, é primeiro capítulo de novela. Mas assim que chega ao Brasil, Paloma precisa de ajuda e recorre ao irmãozinho, caindo no plano perfeito dele: não revelar a gravidez nem para o pai ou a mãe dos dois. E aqui se forma o segundo ingrediente de um novelão: o segredo.

O grande problema acontece na descoberta da gravidez algumas cenas depois, ainda nesse primeiro capítulo, em meio a uma festa na mansão da família Khoury. Mas não se anime muito. Não foi nenhum barraco daqueles que Gilberto Braga adora construir em suas novelas e massacrar a sociedade conservadora carioca. Paloma discute com sua mãe e foge de casa, deixando César, seu pai, enfartado no chão do escritório, para encontrar o seu príncipe encantado, que a essa altura já foi solto da cadeia, e curtir uma balada por São Paulo. Sim, uma grávida de nove meses reencontra seu amado e, no lugar de aproveitarem o tempo e ficarem a sós, eles saem pela cidade que nunca dorme em busca de balada, sinuca e um bom pé sujo.

Tudo ia muito bem até que os pombinhos brigam e o que era doce se acabou. Paloma descobre que Ninho, de príncipe, não tem nada. O cara vai embora e a deixa ali sozinha e com a bolsa estourada em um banheiro nojento. Com a ajuda de Márcia do Espírito Santo, vivida pela sempre ótima Elisabeth Savalla (que manda muito melhor quando faz pobre do que RYCA), Paloma dá a luz a uma menina e desmaia. Como Márcia do Espírito Santo já fez a boa ação de fazer o parto básico no banheirão, ela chama a ambulância e pica a mula do pé sujo, afinal, ela não é obrigada.

Márcia vai embora, mas não sem antes esbarrar com Félix, a bicha má do oeste, que vê nesse quadro a situação perfeita para se livrar da irmã, que está moribunda no chão podre do banheiro, como da sobrinha recém-nascida. Com o coração tão sombrio quanto Scar, do Rei Leão, Félix, que ri na cara do perigo, leva a menina e sem a mínima ideia do que fazer com ela, joga no lixo (Avenida Brasil, deu saudades. Mãe Lucinda, beijos!).


Enquanto Paola Oliveira sofria no banheirão, Gabriela Duarte (Luana) morria em uma mesa de cirurgia junto ao filho que esperava de Bruno (Malvio Salvador). Ou seja, mesmo em novelas que não são de Manoel Carlos, Maria Eduarda não vinga uma criança. Atordoado com a morte da esposa e de seu carro, Bruno decide andar pelo centro de São Paulo, que em 2001 não tinha tanto cracudo quando hoje. E no meio do caminho durante uma chorada e outra, escuta os berros de uma criança. Assim, o primeiro capítulo termina como Shonda Rhimes gosta: tragédia pra tudo quanto é lado e uma criança abandonada no meio. Uffa! Quanta coisa em um só capítulo.

Mas se você acha que foi muita tensão e história para um só dia, prepare-se que só um núcleo foi bem apresentado: Família Khoury. Ainda falta conhecer um pouco mais sobre Bruno dos Santos Araújo (Malvino Salvador) e do núcleo hospital, além de Tatá Werneck que ainda não deu o ar da graça e todos querem ver piriguetear em uma novela do Wolf.

O grande destaque de Amor à Vida foi a direção e os excelentes atores que conseguiram dar credibilidade a um texto didático e simples. Walcyr, infelizmente, não tem a mesma riqueza de diálogos dignos das tramas de Manoel Carlos ou das boas sacadas de personagens de João Emanuel Carneiro. Carrasco abusa das falas de efeito, o que faz com que seus personagens possuam um linguajar mais duro e distante da realidade. Mas é novela, pra quê ser real, não é mesmo? Só que quanto mais irreal, mas difícil o público se apegar aos personagens e torcer por eles.

Sinto que a mocinha Paloma terá problemas junto a torcida feminina da novela. Em nenhum momento sua personagem mostrou personalidade. Ela foi levada facilmente por um cara que conheceu em uma viagem, assim como acreditou, sem questionar, no plano de seu irmão. Sendo que usou dessa saída fácil porque não queria enfrentar as consequências de seus atos perante seu pai e mãe. Já Ninho, do ótimo Juliano Cazarré, ou sairá da trama enquanto pode ou será realocado em breve para o núcleo de comédia já que os mocinhos são Paloma e Bruno. Entre o ato infantil de Ninho em não querer assumir um filho da mulher que ama e o sofrimento de Bruno por perder mulher e filho na mesma noite, acredito que o público irá torcer por ele, só resta saber para ficar com quem.

Pelo primeiro capítulo só posso avaliar que o núcleo principal é bastante sombrio e só Félix, que tem a missão de ser vilão e bicha má enrustido de hetero, teve seus bons momentos ao lado de Pilar, sua mãe na trama e interpretada pela excelente Susana Vieira – que fazia falta em novelas. O único problema é que os dois personagens abusaram de sarcasmos e alfinetadas, saída de praticamente todos os vilões de sucesso do horário. Resta saber se será só disso que iremos sobreviver nos próximos meses até a chegada de Manoel Carlos e suas Helenas do Leblon.

                                                                                         Por Laura Reis
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