domingo, 22 de abril de 2012

Sistema Solar pode ser modelo para outros sistemas planetários?


Concepção artística do sistema planetário HD 1080, que passou a ser o sistema com maior número de planetas que o homem conhece. [Imagem: RoPACS]
Humildade planetária
O Sistema Solar não é mais o sistema planetário com maior número de planetas que o homem conhece.
Com o rebaixamento de Plutão, hoje contamos com apenas oito planetas.
O recordista passou a ser o sistema planetário HD 10180, localizado a 130 anos-luz de distância, que parece ter nove planetas. Depois aparecemos nós e, em terceiro lugar, o sistema Kepler-11, com seis planetas.
Uma equipe da Universidade de Hertfordshire (Reino Unido) confirmou os dados usando o HARPS (High Accuracy Radial velocity Planet Searcher), um espectrógrafo instalado no observatório do ESO em La Silla, no Chile.
Isso vem se somar a outros indícios de que o Sistema Solar pode afinal não ser tão esquisito quanto ficou parecendo quando começamos a encontrar planetas extrassolares.
O que pode ter acontecido é que, como as técnicas para encontrar planetas vem sendo rapidamente aprimoradas, inicialmente os astrônomos só conseguiram ver algumas esquisitices cósmicas.
Por exemplo, inicialmente só se encontravam brutamontes gasosos super-quentes, maiores do que Júpiter, mas mais próximos de suas estrelas do que Mercúrio está do Sol - hoje já se calcula em bilhões o número de planetas rochosos em zonas habitáveis.
Velocidade radial e trânsito
Essa impressão foi reforçada por um outro trabalho publicado nesta semana por astrônomos do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto e do Observatório de Genebra.
Eles analisaram dados do mesmo espectrógrafo HARPS e do telescópio espacial Kepler e concluíram que as órbitas da maioria dos outros sistemas planetários são alinhadas, tal como acontece no nosso Sistema Solar.
A procura de exoplanetas faz-se hoje essencialmente por dois métodos distintos: método da velocidade radial e o método de trânsito.
Existe uma diferença significativa quando estes dois métodos são aplicados.
Um planeta pode ser detectado pela variação da velocidade radial da estrela mesmo quando a órbita esteja inclinado em relação à nossa linha de visão.
No entanto, para um planeta transitar, o plano da sua órbita tem de estar quase perfeitamente alinhado com a Terra, e o mesmo é verdade para um sistema de dois ou mais planetas.
Isto significa que, se observarmos vários planetas transitando em um sistema planetário, as suas órbitas terão ângulos muito pequenos entre si.
Imagem: Ricardo Reis (CAUP)
Compatibilidade de dados
O HARPS é sensível a todos os tipos de exoplanetas, independentemente de sua orientação em relação à Terra, enquanto o telescópio espacial Kepler só enxerga aqueles vistos pela técnica do trânsito, ou seja, planetas que estão bem alinhados com o plano de suas estrelas.
Os astrônomos calcularam as frequências com que ocorrem trânsitos, em particular duplos trânsitos - se o Kepler detectar múltiplos trânsitos na mesma estrela, isto reforça ainda mais a ideia de sistemas planetários mais parecidos com o nosso.
Mas o principal é que eles calcularam quantos sistemas planetários o Kepler deveria encontrar, dada a frequência de todos os sistemas planetários já vistos pelo HARPS.
Feita a comparação, concluiu-se que os dois dados são compatíveis apenas nos sistemas com um plano orbital comum, ou seja, em que as órbitas dos planetas estão inclinadas menos de 1 grau entre si - ou seja, as órbitas dos planetas parecem ser predominantemente alinhadas.
O que faz parecer que não moramos em um lugar assim tão esquisito.
Teorias versus observações
Essas conclusões também dão apoio à teoria mais aceita atualmente, de que os planetas formam-se em um disco ao redor das estrelas, o que limita muito a sua evolução dinâmica, tornando os encontros violentos entre planetas muito raros.
Contudo, nesse início de era das descobertas de sistemas planetários, há um espaço de dimensões cósmicas para controvérsias.
Por exemplo, se nosso Sistema Solar parece um lugar tranquilo hoje, não parece ter sido sempre assim: a teoria mais aceita atualmente para a formação da Lua defende que um planeta do tamanho de Marte, chamado Teia, chocou-se com a Terra.
Também, dados observacionais já encontraram planetas extrassolares com órbitas bem estranhas em relação ao bem-comportado desenho do Sistema Solar, incluindo dois planetas na mesma órbita, exoplanetas com órbitas inclinadas e até exoplanetas que orbitam na contramão, nas chamadas órbitas retrógradas.
Assim, de um lado, o trabalho dos cientistas portugueses reforça a ideia de planetas se formando calmamente de um disco de poeira ao redor da estrela, enquanto, de outro, a descoberta dos planetas na contramão questiona esse modelo de formação planetária mais aceito.
Mesmo as tentativas de explicação das órbitas retrógradas criam modelos que nada têm de calmos e comportados.
Assim, a única coisa que se pode ter certeza é que os anos que virão não terão nada de calmos e comportados para os astrônomos terráqueos.
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