Mata Hari, caso você nunca tenha ouvido falar dela, foi uma dançarina exótica que causou verdadeiro furor pela Europa no início do século 20, e foi executada sob a acusação de ser uma agente dupla durante a Primeira Guerra Mundial. Mas quem foi essa fascinante mulher? Como ela foi se envolver no mundo da espionagem em uma época em que as mulheres não tinham muita voz? E o que realmente se sabe a respeito dessa figura icônica?

Antes da fama

Mata Hari nasceu na pequena cidade de Leeuwarden, situada no norte da Holanda em 1876, e seu nome verdadeiro era Margaretha Geertruida Zelle. Os problemas parecem ter começado depois do falecimento de sua mãe, quando Margaretha tinha 14 anos, e seu pai, após se casar novamente, optar por enviar a jovem e seus três irmãos mais novos para viver com familiares.
Margaretha foi expulsa do colégio onde estudava por se envolver sexualmente com um dos diretores da instituição quando tinha 16 anos e, depois do incidente, ela decidiu fugir de casa e morar com um tio que vivia em Haia. Então, dois anos mais tarde, a jovem respondeu a um anúncio amoroso em um jornal — publicado por um capitão do exército de 39 anos chamado Rudolf MacLeod e que vivia nas Índias Orientais Holandesas, atual Indonésia.
Margaretha e Rudolf no dia de seu casamento
A moça, então com 19 anos, foi atrás do militar, e os dois se casaram. Mas a união de Margaretha e Rudolf não era o que podemos chamar de convencional. Segundo as fontes, ele bebia bastante e não escondia o fato de ter uma amante, e ela, que não curtia nada a situação, resolveu arranjar um amante também. Entretanto, além de ter um caso extraconjugal, Margaretha aproveitou a oportunidade para aprender sobre a cultura oriental.
Apesar de o relacionamento dos dois ser pra lá de conturbado, o casal teve dois filhos, Norman e Jeanne. Infelizmente, as crianças adoeceram e o menino acabou falecendo. Ele tinha apenas dois anos e, na época, Margaretha e Rudolf disseram que as crianças haviam sido envenenadas por inimigos do militar. A causa da morte de Norman nunca foi confirmada, mas existem suspeitas de que, na verdade, as crianças teriam contraído sífilis congênita dos pais.
Durante o tempo em que esteve na Indonésia, ela aprendeu alguns fundamentos de dança oriental
Pouco tempo depois, Rudolf foi dispensado do serviço militar, e o casal retornou com Jeanne à Holanda. Margaretha se separou do marido em 1902, e acabou perdendo a guarda da filha. Então, sem ter meios financeiros para lutar nos tribunais para recuperar a menina, ela se mudou para Paris em 1903, deu início à carreira artística e adotou o nome de Mata Hari — que significa “Olho da Manhã” em malaio.

Nasce uma estrela

No início, as coisas não foram fáceis para Mata Hari. Para se sustentar em Paris, ela trabalhou como modelo, posando nua para artistas, e teve que apelar para a prostituição também. Depois de um tempo, ela arranjou um emprego em um circo, e não demorou até ela começar a se apresentar como dançarina e ganhar certa fama.
Ela era considerada uma artista exótica
No palco, Mata Hari dizia ser uma princesa hindu da Indonésia, e os parisienses, que estavam na vibe de curtir tudo o que fosse “exótico”, logo passaram a fazer fila para assistir a suas performances — nas quais ela, basicamente, fazia o bom e velho strip-tease. Mas o sucesso mesmo veio em 1905, depois de ela se apresentar pela primeira vez no Musée Guimet, dedicado à cultura asiática.
Foi depois dessa apresentação que o nome de Mata Hari se tornou famoso em toda a Europa, e ela passou a ser cobiçada por figurões de todo o mundo. Um famoso jornalista francês descreveu sua dança em artigo como sendo “felina, extremamente feminina e majestosamente trágica”, complementando que “milhares de curvas e movimentos de seu corpo tremiam com milhares de ritmos”. Outro jornalista teria descrito a dançaria como “magra e alta, com a graça flexível de um animal selvagem e cabelos negro-azulados”.
Ela conquistou a Europa com sua dança exótica e com o bom e velho strip-tease
O êxito, entretanto, durou pouco e, em 1912, a carreira de dançarina exótica de Mata Hari começou a entrar em declínio. Por outro lado, ela se tornou uma importante cortesã no período em que esteve se apresentando pela Europa, e manteve relacionamentos com políticos, altos militares e homens influentes de vários países. Então, em 1914, a Primeira Guerra Mundial começou.

Espionagem e intrigas

A Holanda se manteve neutra durante a guerra e, por ser holandesa, Mata Hari não tinha qualquer problema na hora de viajar de um país a outro na Europa. Acontece que suas idas e vindas acabaram chamando a atenção — e seu nome acabou entrando em uma lista de pessoas suspeitas de espionagem.
Mata Hari em 1914
Algumas evidências sugerem que ela agiu como espiã para os alemães, e também que ela atuou temporariamente como agente duplo para os franceses. No entanto, parece que os alemães acabaram dispensando seus serviços por achar que Mata Hari não era muito eficiente em arrancar informações valiosas de seus amantes.
Então, em janeiro de 1917, as autoridades francesas interceptaram uma mensagem enviada por um oficial alemão sediado em Madri, na Espanha, a Berlim, e o conteúdo se referia às atividades de um espião identificado como H-21. A identidade do agente foi atribuída a Mata Hari — há quem acredite que os alemães armaram contra ela — e, em fevereiro ela foi presa e enviada à Prisão St, Lazare de Paris.
Mata Hari quando foi presa pelas autoridades francesas em 1917
Mata Hari foi submetida a um julgamento militar em julho do mesmo ano e acusada de revelar detalhes sobre a nova arma dos aliados — o tanque de guerra — aos alemães, o que teria resultado na morte de dezenas de milhares de soldados. Além disso, os franceses encontraram tinta invisível entre suas posses, e a acusaram de usar a substância para escrever mensagens aos inimigos.
Ela foi considerada culpada de todas as acusações, condenada à morte por fuzilamento e executada, em outubro de 1917. Dizem que Mata Hari recusou a venda e soprou um beijo ao pelotão antes dos atiradores abrirem fogo, e que ninguém apareceu para reclamar seu corpo.

Mas ela era mesmo culpada?

Durante o processo, Mata Hari admitiu ter aceito dinheiro de um cônsul alemão, mas negou ter realizado qualquer “serviço” para o homem. Ela explicou que aceitou a quantia em pagamento por uma série de itens seus — como casacos de pele e outras peças de roupa — que teriam sido confiscados em uma de suas viagens. Sobre a tal tinta, Mata Hari alegou que a substância fazia parte das maquiagens que ela usava em suas apresentações.
Ela foi uma mulher à frente de seu tempo
Na verdade, os historiadores apontam que o julgamento de Mata Hari foi tendencioso e que boa parte das evidências usadas contra ela eram circunstanciais. Também há quem acredite que a sua execução serviu para desviar as atenções das imensas perdas que o Exército Francês estava sofrendo no fronte oriental.
Portanto, apesar de ser retratada como uma sedutora perigosa, uma “mulher fatal” que usava o sexo para manipular os homens, tudo indica que, na realidade, ela foi uma vítima. É certo que Mata Hari não era nenhuma puritana, além disso, ela foi uma mulher independente que não teve medo de correr atrás do próprio sucesso. Só que ela fez isso em uma época em que esse tipo de comportamento era considerado pouco convencional e desafiador.
Será que a verdade sobre sua culpa ou inocência algum dia virá à tona?
Os documentos do julgamento de Mata Hari devem ser liberados ao público pelo governo francês ainda este ano. Então, quem sabe a verdadeira história dessa fascinante mulher, e as provas de que ela era mesmo a espiã perigosa que muitos acreditam que ela foi, venha à tona.