Talvez você torça o nariz quando ouve sobre algumas iguarias da culinária russa — que vai de pratos com caviar e creme azedo a gordura de porco crua e gelatina de carne. Entretanto, os pratos exóticos jamais poderiam ser associados a apenas um único país ou mesmo a uma única época.
Não é de hoje, afinal, que se comem coisas nojentas, estranhas ou exóticas. Senão, o que você diria sobre ingerir parte do que vem com os excrementos de baleia? Ou então sobre uma saborosa torta feita de vinagre — cujo surgimento é devido ao alto preço do limão em outros tempos?
Uma refeição compartilhada de pele de baleia com camada de gordura (Muktuk).
Naturalmente, assim como vários outros pratos que fazem virar os olhos e o estômago em um primeiro contato, também esta bem temperada lista traz iguarias que devem ser tão estranhas quanto apetitosas — supondo-se que você consiga levar aquele bocado de ovo de iguana até a boca sem ficar enjoado ou fingir um acidente durante o percurso.
Sem mais, vamos a 10 dos pratos mais estranhos que fazem ou que já fizeram parte da culinária mundial. Há de tudo: de frutas e vegetais a animais voadores, rastejadores e nadadores. Bom apetite.

1 - Arganaz recheado

O arganaz é uma espécie de roedor semelhante ao hamster. Trata-se daquele bichinho curioso encontrado no meio da fauna excêntrica da obra “Alice no País das Maravilhas”. Longe da fantasia, entretanto, os romanos cultivavam o hábito de engordar esses “ratos” para compor um dos pratos mais apreciados da Roma Antiga.
Ocorre que o arganaz costuma hibernar durante todo o inverno. Entretanto, quando colocado em um recipiente denominado de “glirarium”, a escuridão fazia com que ele permanecesse em hibernação durante todo o ano — embora não antes de estocar uma grande quantidade de alimentos.
Como resultado, ao final do ano havia roedores obesos e prontos para o recheio de nozes e para ser assado com mel e especiarias. Atualmente, o arganaz é caçado apenas em algumas partes da Eslovênia e da Croácia, onde é considerado um prato fino.

2 - Geleia de bexiga de peixe

A ictiola é uma espécie de cola obtida da bexiga natatória dos peixes, algo semelhante ao colágeno. Embora seja utilizada mais tradicionalmente nos processos de clarificação do vinho e da cerveja — incluindo a celebrada Guinness —, essa substância acabava muitas vezes virando a refeição em diversas mesas da Inglaterra Vitoriana. Com ação análoga à da pectina, a ictiola era utilizada para dar a consistência de geleia a uma receita que também levava açúcar, suco de limão e frutas.

3 - Muktuk (pele de baleia com gordura)

Residentes do Ártico não podem ser lá muito seletivos na hora de comer. Tradicionalmente, a comida dessas regiões vem quase que exclusivamente do mar — com pescas o ano inteiro e estações para caça de focas e baleias. De fato, o chamado “Muktuk” é obtido desses grandes mamíferos, embora a baleia-da-groenlândia seja a favorita.
Trata-se de pedaços de pele de baleia com pequenas camadas de gordura — o que, dizem os locais, é algo incrivelmente delicioso. O Muktuk pode ser comido fresco, salgado, frito ou em conserva, sempre com a inconfundível consistência elástica.
O Muktuk é também considerado de suma importância em dietas mais tradicionais, já que é uma fonte bastante pródiga de vitamina C (vital para evitar doenças como o escorbuto). Diversas culturas árticas possuem formas próprias de ingerir a iguaria, incluindo aborígenes da Groenlândia, do Canadá, da Sibéria e do Alásca. Não obstante, o consumo desse prato diminuiu nos últimos anos por variações de sabor das sucessivas gerações e também por preocupações relacionadas às toxinas encontradas atualmente nos oceanos.

4 - Torta de vinagre

Conta-se que a torta de vinagre surgiu inicialmente como um método para baratear receitas. Embora a origem seja vaga, acredita-se que a utilização do vinagre em tortas teve início em meados do século 19, quando alguns cozinheiros passaram a utilizar cidra de maçã como aromatizante — produto, à época, consideravelmente mais barato do que frutas ou suco de limão.
O prato chegou a ser conhecido na época domo “Torta de Limão de Homem Pobre”. Mais adiante, as necessidades surgidas na Grande Depressão dos EUA igualmente deram origem a receitas inventivas, incluindo a mistura de bolachas e suco de limão em tortas para fazer as vezes da maçã.
Quanto à torta de vinagre, entretanto, há quem garanta que, se bem-feita, é de lamber os beiços. De fato, há atualmente versões bem menos baratas do que as originais de 1800, algumas delas aromatizadas por vinagres balsâmicos.

5 - Salada em gelatina

A prática de enfiar praticamente qualquer comestível em gelatina se popularizou na metade do século passado, quando a produção industrial de gelatinas como a tradicional Jell-O tornou possível pratos cada vez mais rápidos e práticos. Havia receitas de saladas congeladas por toda parte, com ingredientes que incluíam camarões, nabo, carnes variadas e vegetais.
Tratava-se ainda de uma forma relativamente mais fácil de fazer com que toda a família ingerisse alimentos saudáveis — incluindo algumas receitas particularmente apetitosas com cobertura de maionese. Os pratos salgados com gelatina se tornaram tão tradicionais, que a própria Jell-O passou a oferecer versões com sabor de tomate, pepino etc.

6 - Garça assada

O livro “The Forme of Cury” foi um dos primeiros publicados em língua inglesa. E os pratos ali cobriam uma grande porção da fauna então disponível, desde golfinhos a baleias, focas e garças.
Embora não se saiba realmente quem escreveu a obra, dada a enorme quantidade de ingredientes raros e caros, acredita-se que o The Forme of Cury foi concebido para a cozinha da realeza — capaz de se adequar a qualquer coisa que as cabeças coroadas trouxessem após um dia de caça. O livro também é notável por ser, aparentemente, um dos primeiros a utilizar métodos associados à chamada “cozinha de fusão”, que funde elementos de culturas distintas.

7 - Ovos de iguana

Comumente, associa-se à ideia de ovos comestíveis qualquer coisa que possua penas sobre o corpo. Entretanto, caso você pertencesse ao antigo povo maia, essa ligação não estaria sempre correta. Isso porque os maias eram grandes apreciadores dos ovos da chamada “iguana negra” — refeição bastante importante para um povo pouco afeito a ingerir proteínas diretamente da carne dos animais.
Ademais, as iguanas negras possuem ainda outra vantagem que era sumamente importante para aventureiros. Por passar menos tempo imersa em água (se comparada com a iguana verde), a espécie era ideal para gerar provisões ao longo de uma viagem. Atualmente, tanto a caça quanto a criação de iguanas em cativeiro são consideradas ilegais em grande parte da América Central e da América do Sul.

8 - Sanduíche de torrada

Ok, não há realmente nada de asqueroso ou incrivelmente estranho aqui. Entretanto, não se pode negar certa excentricidade à prática de comer um sanduíche cujo recheio é uma torrada — quer dizer, três fatias de pão empilhadas, sendo uma delas tostada. A receita foi encontrada pela primeira na obra “Miss Beeton’s Book of Household Management”, livro de receitas lançado em 1861 e incrivelmente popular até hoje.
Em 2011, a badalada Royal Society of Chemistry chegou a organizar um banquete com sanduíches de torrada. O nome: “A mais barata das refeições britânicas”. É verdade que há também algumas versões mais nutritivas do prato, incluindo cenoura ou bacon, por exemplo.

9 - Âmbar cinzento

O chamado âmbar cinzento é formado no intestino da cachalote. Trata-se de uma mistura de bílis e gordura formada no entorno de substâncias duras, de digestão difícil para o animal. Embora tenha sido extensivamente utilizado como fixador para perfumes — incluindo o celebrado Chanel No. 5 —, também houve quem ingerisse a substância como um raro e delicado quitute.
A secreção biliar da cachalote já se combinou com chocolate quente na França, por exemplo. Além disso, há quem diga que o escritor boêmio Giacomo Casanova utilizava a substância por suas pretensas propriedades afrodisíacas. Já na China antiga acreditava-se simplesmente que o âmbar cinzento encontrado nas praias era saliva de dragão.

10 - "So"

O chamado “So” é um prato particularmente curioso quando se considera um traço muito característico da cozinha japonesa: a quase ausência de alimentos derivados do leite. Na verdade, o “So” é o único dessa natureza registrado na história milenar da Terra do Sol Nascente — em que o gado não era criado pela carne ou pelo leite, mas sim para puxar o arado nas plantações.
A receita foi produzida sobretudo entre os séculos 8 e 14, normalmente para pessoas pertencentes às classes nobres. O “So” é obtido fervendo-se o leite até que ele se torne uma pasta quase sólida. Entretanto, o prato era ingerido mais por status do que por ser propriamente apreciado — embora, originalmente, a ideia fosse simplesmente encontrar uma forma de preservar o leite em um período anterior aos refrigeradores e à pasteurização.